O caminho fácil da generalização

Existe uma sedução compreensível na estratégia da generalização: a eficiência/economia. Cobre-se mais espaço com menos argumentos – questões que se prolongariam por quilômetros em argumentações detalhistas são superadas rápido com jabs genéricos, que agrupam impiedosamente problemas vagamente semelhantes em grupos enxutos prontos para o abate.

O problema óbvio, claro, é a falta de rigor, que deixa para trás fraturas e buracos mal escondidos, fissuras que um contra-argumento posterior pode explorar com facilidade. Quero focar em uma outra consequência, porém: as conclusões imprevistas geradas por essas generalizações – os subprodutos inesperados que surgem quando alguém segue até o fim esses argumentos (um conceito semelhante a esse existe em inglês: proving too much, “provando coisas demais”).

Na ânsia de obliterar objeções e provar teses, o argumento generalista acaba indo longe demais e, sem perceber, abre espaço para conclusões problemáticas que não condizem com o que se buscava inicialmente.

Um exemplo clássico é a resposta ao argumento “você não tem como provar que Deus não existe”, que pode ser respondido rapidamente com “sim, também não posso provar que dragões não existem, ou Odin, ou uma bota falante”. Na ânsia de defender o conceito “deus”, abre-se espaço para a defesa simétrica de qualquer outra divindade ou elemento sobrenatural.

O que tem me chamado a atenção é o quanto diversos argumentos generalistas acabam dando margem para conclusões que parecem ir contra o objetivo supostamente buscado. O caso paradigmático hoje é o uso da palavra “violência”.

Ainda que o uso corrente da palavra seja referente à violência física, é costumeiro que em debates políticos/intelectuais amplie-se o conceito para tratar de violência psicológica, simbólica, social, etc. Não há nada de intrinsecamente errado em ampliar um conceito – palavras são maleáveis e seu sentido é definido pelo uso corrente. O problema é que esses debates trabalham para que todos os sentidos se misturem, buscando uma equalização amorfa do conceito.

Aproveitando-se da conotação negativa da palavra “violência” (ninguém gosta de levar um soco na cara), o debatedor tenta transplantar essa potência aos novos conceitos que pretende tratar. Aproveitando-se da rejeição costumeira da sociedade à violência física, tenta-se atacar “novas violências” (simbólica, por exemplo) por associação.

O problema mais óbvio: talvez a violência simbólica (que no geral consiste em desrespeitar ícones, religiões, culturas, etc) seja afetada por essa estratégia, mas, simetricamente, a violência “física” perde poder como conceito – as pessoas que não ligam para violência simbólica e só consideram a vertente física como algo relevante, ao lerem repetidas vezes a palavra “violência” se referindo a algo que não as incomoda, vão gradativamente se dessensibilizando em relação ao uso da palavra.

Supondo que o objetivo inicial de quem resolve analisar e teorizar sobre violência seria complexificar o conceito e buscar maneiras de tornar o mundo menos violento, a generalização (“você se diz contra a violência, mas e a violência simbólica dos outdoors com a propaganda x que ofendem o grupo y?”) vai no caminho oposto. A gradação possível entre “violência-soco-na-cara” e “violência-xinguei-sua-mãe” serve exatamente para que possamos criar maneiras melhores de lidar com essas instâncias. O sujeito que tenta vencer o debate passando por cima de tudo e proclamando triunfante que “tudo é violência” não conseguirá interditar as novas violências que pretende derrotar, pois a interdição de “tudo” é impossível (seu nome é morte).

Igualmente, o recuo para a frase genérica “tal questão é estrutural” ao ser confrontado com um problema específico não torna o problema mais complexo, e sim menos. Se tudo é violento e tudo é estrutural, então nada é – o que conseguimos aqui é simplesmente equalizar a violência inicial, que todos já considerávamos problemática, a outras questões difusas. O conceito tradicional perdeu força, e os novos só sobrevivem através de parasitismo.

Não há resposta fácil para esse fenômeno – como todo meme argumentativo bem-sucedido, seu sucesso é a explicação para sua permanência. Calar seu adversário através de generalizações funciona, e por isso vai continuar acontecendo. A única coisa que podemos fazer é tentar produzir e recompensar pensamentos que façam o contrário – que trabalhem no micro, na especificidade, na complexificação. Ideias que gerem mais bits de informação, e não menos – que tornem fenômenos e conceitos mais oblíquos, mais intrincados, mais difíceis. Infelizmente o caminho fácil é atraente, mas podemos contar com as consequências inesperadas lá na frente para punirem (e desencorajarem) quem faz esse tipo de coisa.

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